10. CULTURA 14.11.12

1. LIVROS - AS ATROCIDADES DE KADAFI
2. CINEMA - CREPSCULO FINAL
3. A OUTRA FACE DE ABRAHAM LINCOLN
4. EM CARTAZ  SHOW - O CANTO MOLEQUE DE JOSS STONE
5. EM CARTAZ  LIVROS - REALIDADES PARALELAS NO JAPO
6. EM CARTAZ - ARTE - UMA FEIRA DE IMAGENS
7. EM CARTAZ  CINEMA - ESPECTADOR DIRETOR
8. EM CARTAZ  MSICA  A NOVA REVELAO DO HIP HOP
9. EM CARTAZ  AGENDA - MIX BRASIL/POP/GONZAGO
10. ARTES VISUIAS - ENSAIO SOBRE A LIBERDADE
11. ARTES VISUAIS  ROTEIROS - CIRCUITO DE RAIZ

1. LIVROS - AS ATROCIDADES DE KADAFI
Livro de jornalista francesa revela a rotina de escravido e estupros praticados pelo ditador lbio por mais de 40 anos
Marcos Diego Nogueira


 "No tenha medo. Sou seu papai,  assim que voc me chama, no?
 Mas tambm sou seu irmo e, alm disso, seu amante. Vou ser tudo isso pra voc. Porque voc vai viver comigo pra sempre" Fala de Kadafi dita  jovem Soraya em sua chegada ao palcio do ditador
 
Pouco mais de um ano aps sua morte, ainda emergem novos itens na lista de atrocidades cometidas pelo ditador lbio Muamar Kadafi durante suas quatro dcadas de governo. Um dos mais obscuros acaba de ser cruamente descrito em O Harm de Kadafi (ed. Verus), livro da jornalista francesa Annick Cojean. A reprter especial do dirio Le Monde d voz a Soraya, jovem que, como tantas outras, foi tirada do seu convvio familiar para viver aprisionada a servio do impiedoso lder. Atravs de seu depoimento  possvel entender como funcionava o sistema de escravas sexuais de Kadafi e seu conhecido exrcito de virgens.
 
Era abril de 2004 quando Soraya soube que o mandatrio visitaria sua escola em Sirte, cidade da costa mediterrnea. Aluna de poucos amigos, foi uma das escolhidas para receber Kadafi e entregar-lhe flores. Estendi o buqu, tomei sua mo livre nas minhas e a beijei, me curvando. Ento senti que ele comprimia estranhamente minha palma. Depois me mediu de cima a baixo, me lanando um olhar frio. Apertou levemente meu ombro e pousou a mo sobre minha cabea, acariciando-me os cabelos. E minha vida terminava a. O gesto significava que ela era uma das escolhidas pelo ditador.

PORTA-VOZ - A jornalista francesa Annick Cojean ouviu os relatos da jovem Soraya aps conhec-la na Lbia em 2011

Soraya foi ento convocada pelo exrcito e, a partir da e pelos cinco anos que se seguiram, viveu um cotidiano de violncia sexual. Ela era parte de um sistema que funcionava com inmeras outras garotas, selecionadas por Kadafi tambm em universidades, festas particulares e casamentos. Uma vez escolhida, a adolescente era exposta a todas as perverses do tirano obcecado por sexo. Soraya era obrigada a assistir a filmes pornogrficos para aprender a servir seu amo, alm de beber usque, fumar cigarros e usar drogas como cocana.
 
Kadafi tambm usava o sexo para punir ou premiar. O ditador sodomizava seus ministros para mant-los sob seu domnio. E, quando queria humilhar algum, dormia com sua esposa ou filha. E o pior, com o silncio preservado. Em um pas conservador, no se falava abertamente sobre o assunto.
 
A famlia de Soraya conhecia sua situao, mas vivia o sofrimento de longe, de mos atadas. Sua me foi autorizada a visit-la algumas vezes, e outros parentes passaram a consider-la mundana. Hoje, casada e tentando conviver com os fantasmas do passado, ela mostra, atravs de Annick, parte das manchas deixadas em seu passado pelo ditador. Kadafi ficou no poder por 42 anos e essa prtica acontece desde que ele assumiu. Imagina quantas garotas como Soraya esto por a?, questiona a autora.
 
Leia um trecho do segundo captulo do livro: 
PRISIONEIRA

Ficamos rodando de carro por um bom tempo.
Eu no tinha ideia de que horas eram, mas aquilo
me parecia interminvel. Samos de Sirte e avanamos
pelo deserto. Eu s olhava para frente e no
ousava fazer perguntas. Ento, chegamos a Sdadah,
em uma espcie de acampamento. Havia muitas
tendas, outras caminhonetes e um imenso trailer,
extremamente luxuoso. Mabruka foi em direo
ao veculo, fazendo sinal para que eu a seguisse, e
acreditei ter visto, em um carro parado com o motor
ligado, uma das alunas que, como eu, haviam
sido escolhidas na vspera para receber o Guia. Isso
me deu certa segurana. No entanto, ao entrar no
trailer, fui tomada por uma angstia indescritvel.
Era como se todo o meu ser recusasse aquela situao.
Como se intuitivamente eu soubesse que algo
muito ruim estava sendo tramado.
Muamar Kadafi estava ali dentro, sentado em
uma poltrona de massagem vermelha, com o controle
remoto na mo. Imperial. Eu me adiantei para
beijar-lhe a mo, que ele estendeu debilmente,
olhando ao longe.
 Onde esto Faza e Salma?  perguntou a Mabruka com a voz irritada.
 J esto chegando.
Eu estava estupefata. Nem o menor olhar na minha direo. Eu
no existia. Muitos minutos se passaram. Eu no sabia onde me enfiar.
Ele acabou se levantando e me perguntou:
 De onde  sua famlia?
 De Zliten.
Sua fisionomia continuou impassvel.
 Preparem-na!  ordenou, deixando o local.
Mabruka fez sinal para que eu me sentasse em uma banqueta num
canto da sala. As outras duas mulheres entraram,  vontade, como se
ali fosse a casa delas. Faza sorriu para mim, se aproximou e me tocou
com certa intimidade no queixo.
 No se preocupe, pequena Soraya!  e tornou a sair, rindo.
Mabruka estava ao telefone. Ela dava instrues e fornecia detalhes
prticos para algum que estava chegando, talvez uma garota como
eu, j que pude ouvir:
 Tragam-na aqui.
Ela desligou e se voltou para mim.
 Venha. Vamos tirar suas medidas para lhe encomendar algumas
roupas. Qual o tamanho do seu suti?
Fiquei atnita.
 Eu... eu no sei.  mame quem sempre compra minhas roupas.
Ela parecia irritada e chamou Fathia, uma figura, pois tinha voz e
porte de homem, mas seios imponentes de mulher. Ela me avaliou,
depois me cumprimentou de maneira informal e piscou para mim.
 Ento,  a novata? E de onde vem esta?
Passou a fita mtrica em torno da minha cintura e dos meus seios,
encostando os dela nos meus. Depois anotou as medidas e saiu do trailer.
Fiquei ali sozinha, e no ousava chamar algum nem me mexer.
Caa a noite. E eu no estava entendendo nada. O que mame pensaria?
Ela seria avisada do atraso? O que aconteceria ali? E como eu voltaria?


2. CINEMA - CREPSCULO FINAL
A saga que causou a febre dos vampiros no cinema e na literatura chega ao seu desfecho com "Amanhecer - Parte 2"
 Mariana Brugger

Confira algumas pardias da srie e divirta-se antes de saber o desfecho da saga 

UNIDOS S NA FICO - Pattinson e Kristen: harmonia nas telas e traio na vida real
 
Bella Swan (Kristen Stewart) desperta. Sua pele  branca e seus olhos, vermelhos. Depois do conturbado parto de Renesmee (Mackenzie Foy), ela foi transformada em uma vampira e precisa agora se acostumar com essa condio. Seu filho com Edward (Robert Pattinson) corre perigo, pois a famlia Volturi quer elimin-lo seguindo  risca a lei dos vampiros.
 
Assim comea Amanhecer  Parte 2, filme de US$ 132 milhes que marca o final da saga mais bem-sucedida dos ltimos tempos. J o desfecho apotetico dessa trama, que inclui at uma batalha pica, est guardado a sete chaves at a madrugada da quinta-feira 15 (data de sua estreia mundial) e promete no decepcionar a quem acompanha a histria at aqui.  um encerramento com chave de ouro, garante Mrcio Fraccaroli, diretor da Paris Filmes, distribuidora do longa-metragem.

A estimativa de Fraccaroli  ultrapassar em 25% o faturamento da primeira parte de Amanhecer, que teve sete milhes de ingressos vendidos e arrecadou R$ 66 milhes. Ele espera que 400 mil ingressos sejam vendidos no Brasil apenas para a pr-estreia do longa-metragem. Existe, inclusive, uma aposta no pas como um dos locais-chave para o lanamento, que teve no Rio de Janeiro um de seus cenrios para a primeira parte.
 
Outro atrativo do filme  que o mundo voltar a ver aparies pblicas do casal protagonista, Robert Pattison e Kristen Stewart, que reataram aps serem divulgadas fotos dela traindo o ator com o diretor Rupert Sanders. A relao instvel inspira cuidados da produo, que reservou quartos separados para a dupla durante o tour de divulgao, que no passa por aqui. J nas telas, eles se mostram cada vez mais unidos na tentativa de evitar a morte de seu primeiro filho vampiro.


3. A OUTRA FACE DE ABRAHAM LINCOLN
Daniel Day Lewis incorpora na tela o presidente combativo que conquistou a imagem de pacificador que uniu a nao
Marcos Diego Nogueira

Em plena semana de reeleio do presidente Barack Obama nos Estados Unidos, as salas de cinema do pas exibem desde sexta-feira 9 o longa-metragem sobre um dos seus lderes mais representativos e que viveu no sculo XIX. O grande responsvel por Lincoln, que estreia no Brasil em janeiro de 2013,  Steven Spielberg. Foi ele o encarregado de dar vida ao livro Team of Rivals  The Political Genius of Abraham (Time de Rivais  O Gnio Poltico de Abraham), da historiadora e vencedora do Pulitzer Doris Kearns Goodwin, conhecido como a biografia definitiva do 16 presidente americano.
 
A autora ajudou tambm na redao do roteiro final, ao lado de Tony Kischer, que havia trabalhado com Spielberg em Munique. A dupla deu nfase  participao de Lincoln na Guerra de Secesso ocorrida entre 1861 e 1865 em que o norte industrializado acabou vencendo os Estados Confederados do sul defensores dos latifndios e da escravido. Foram seus ltimos momentos, a considerar que cinco dias aps o final do conflito o ento presidente, que acabara de anunciar o direito do voto aos negros, havia sido assassinado por um confederado fantico.

SUCESSO - O presidente reeleito Barack Obama observa retrato de Lincoln na Casa Branca
 
Os esforos do diretor e de seus roteiristas e o investimento de US$ 65 milhes teriam sido em vo se no fosse a presena fundamental de Daniel Day Lewis no papel principal. Ele, que recebeu duas vezes o Oscar de melhor ator pelas atuaes em Meu P Esquerdo e Sangue Negro, tem boas chances de garantir a terceira estatueta na premiao do ano que vem. Substituto de Liam Neeson, que havia se preparado para o papel, mas em 2010 abandonou o projeto por estar muito velho para interpretar o Abraham Lincoln de 56 anos de idade, Lewis pesquisou discursos e anotaes feitas pelo seu personagem para montar o que se v na tela. O legado de seus escritos  importantssimo, diz o ator em entrevista. Voc consegue compreend-lo muito bem no s por seus discursos, mas tambm pelas histrias que ele costumava contar, completa, se dizendo espantado do quanto a Casa Branca era acessvel naquela poca. Era um lugar onde as pessoas podiam entrar e sair quando quisessem.
 
Conhecer as virtudes de Lincoln foi o ponto de partida para Lewis, que, durante o processo, passou a moldar o personagem de um jeito obsessivo. Sally Field provou isso na prtica. A atriz, que interpreta a ento primeira-dama Mary Todd, comeou, certa vez, a receber mensagens de celular assinadas por Abraham Lincoln. Ouvia meu telefone tocar e de repente era algum tipo de anedota com a assinatura A . J Spielberg certa vez recebeu um recado em sua caixa postal eletrnica de algum com um sotaque de fronteira, mistura entre Illinois, Indiana e Kentucky, em uma voz de tenor, como definiria o criador de De Volta Para o Futuro. Era o Abraham de Lewis o convidando: Depois que ouvir isso me ligue para termos uma conversa?

"Lincoln discutia os dois lados de cada assunto. E era muito cuidadoso com cada deciso a ser tomada. Na realidade, seus oponentes e inimigos o criticavam constantemente por sua lentido em decidir algo", Steven Spielberg
 
O dilogo ao telefone seria sobre o quanto Lincoln ensinou aos seus sucessores que, mesmo nos tempos de extrema polarizao, o centro moderado  o caminho para o sucesso presidencial. Ele discutia os dois lados de cada assunto. E era muito cuidadoso com cada deciso a ser tomada. Na realidade, seus oponentes e inimigos o criticavam constantemente por sua lentido em decidir algo, diz Spielberg, que a partir daquele dia passou a se referir a Lewis pela alcunha de Senhor Presidente. Meses antes, com a desistncia de Neeson, Spielberg e Kushner voaram at a Irlanda para um primeiro contato com o ator britnico na cidade onde mora, prxima a Dublin. Com seu iPhone, o diretor tirou um retrato de Lewis perto da janela, de perfil. Sua silhueta parecia a de um jovem Abe Lincoln, recorda o roteirista. Eles haviam encontrado a outra face de Abraham Lincoln.


4. EM CARTAZ  SHOW - O CANTO MOLEQUE DE JOSS STONE
por Ivan Claudio

Ao estrear em disco aos 16 anos de idade, a cantora inglesa Joss Stone foi recebida com certa desconfiana. Seria essa garota de voz grave, tpica das divas da soul music, um fenmeno musical passageiro? Dez anos aps o lanamento de The Soul Sessions, ela prova que veio para ficar e que j tem maturidade para interpretar clssicos do porte de I Dont Want to Be With Nobody But You (Eddie Floyd) e Teardrops (Linda e Cecil Womack), presentes em seu mais recente CD, The Soul Sessions Vol. 2.  justamente o repertrio desse lbum que ela vai apresentar na turn que passar por quatro capitais brasileiras a partir do domingo 11. Joss retorna com seu time de msicos de primeira, que conta com naipe de metais e trs cantores de apoio, e promete fazer a plateia danar com sua competncia sonora e a molecagem tpica de quem acaba de completar 26 primaveras.  
 
+5 NOVAS CANTORAS INGLESAS
KAREN ELSON (FOTO)
A modelo, compositora e guitarrista lanou em 2010 o CD The Ghost Who Walks, produzido por seu ento marido Jack White
 
LILY ALLEN
 Est entre as mais bem-sucedidas do Reino Unido, tendo vendido ao todo 8,5 milhes de cpias de seus dois trabalhos
 
CORINNE BAILEY RAE
 Mais voltada para o soul, ela lanou-se com p direito, vencendo dois prmios Grammy em 2006
 
JESSIE J
 Suas msicas foram gravadas por artistas como Miley Cirus, que interpretou a cano Party in USA
 
BABY CHARLES
 Ficou conhecida por uma verso soul de I Bet You Look Good on the Dancefloor, do quarteto roqueiro Arctic Monkeys


5. EM CARTAZ  LIVROS - REALIDADES PARALELAS NO JAPO 
por Ivan Claudio

Escritor japons mais lido no mundo e eterno candidato ao prmio Nobel de Literatura, Haruki Murakami no esconde a influncia do Ocidente em seus romances  Norwegian Wood, de 1987, por exemplo, traz no ttulo o nome de uma msica dos Beatles. Na trilogia 1Q84 (Alfaguara), cujo primeiro livro chegas s lojas esta semana, a referncia, agora tambm na trama, so os enredos polticos do britnico George Orwell. A trajetria de Tengo, um matemtico com aspiraes s letras, cruza-se com a de Aomame, uma professora de artes marciais que usa as suas habilidades para eliminar homens que abusam de mulheres. Ao investigar uma seita religiosa, eles percebem que o mundo  regido por uma impenetrvel realidade paralela, pretexto para Murakami discutir a condio humana, tema comum em suas narrativas.  


6. EM CARTAZ - ARTE - UMA FEIRA DE IMAGENS
por Ivan Claudio
Maior feira do gnero na Amrica Latina, a SP-Arte Foto (Shopping JK Iguatemi, So Paulo, at 11/11) rene 20 galerias nacionais e internacionais. Voltada para nomes clssicos, a Galeria Fass representa nomes como German Lorca, Martin Chambi e Luiz Carlos Barreto, que antes de se dedicar ao cinema trabalhou como fotojornalista na revista O Cruzeiro. J a Casa Tringulo traz os artistas contemporneos Albano Afonso e Mrcia Xavier (foto), que utilizam a fotografia em cruzamento com as artes plsticas, em suportes no convencionais.


7. EM CARTAZ  CINEMA - ESPECTADOR DIRETOR
por Ivan Claudio
Os assuntos do amor esto se tornando o tema preferido do diretor iraniano Abbas Kiarostami, um dos grandes nomes do cinema mundial. Em Um Algum Apaixonado (em cartaz em So Paulo), ele mostra a enigmtica relao entre uma garota de programa e um homem mais velho nas ruas de Tquio. Como em seu filme anterior, Cpia Fiel, passado na Itlia, em que retratou um casal sem dar pistas do que exatamente estaria acontecendo entre ele, Kiarostami deixa lacunas para que o espectador as preencha com a sua imaginao. Tal cumplicidade  propiciada pelo uso de movimentos delicados e por jogos de olhares daqueles que dizem tudo sem precisar de palavras.


8. EM CARTAZ  MSICA  A NOVA REVELAO DO HIP HOP
por Ivan Claudio
O cantor americano Frank Ocean, de 24 anos, se destaca no ambiente machista do hip hop americano no apenas por ter se declarado bissexual: seu primeiro CD, Channel Orange,  musicalmente superior  maior parte do que se produz hoje nessa rea. Com um registro vocal que lembra o de Stevie Wonder e um frescor musical que remete  fase mais criativa de mestres como Marvin Gaye e Prince, Ocean assina um lbum que revisita a soul music e o funk do passado, renovados pelos beats e cruzamentos sonoros do melhor hip hop. Uma boa amostra  Pyramids, uma sute rhythmnblues de dez minutos de durao, atravessada por teclados progressivos e a guitarra jazzy de John Mayer.


9.EM CARTAZ  AGENDA - MIX BRASIL/POP/GONZAGO
Conhea os destaques da semana
por Ivan Claudio

MIX BRASIL
 (So Paulo, at 18/11; Rio, de 22/11 a 1/12)
O festival apresenta 36 longas, com destaque para Circunstncia, de Maryam Keshavarz
 
POP
 (Museu Oscar Niemeyer, Curitiba, at 20/2/2013)
Com 80 obras, a mostra Amrica do Sul, a Pop Arte das Contradies confronta a produo do gnero no Brasil e na Argentina
 
GONZAGO A LENDA
  (Sesc Ginstico, Rio de Janeiro, at 16/12)
Joo Falco assina o texto e a direo desta pea em homenagem a Luiz Gonzaga. O elenco  encabeado por Alfredo Del Penho e Laila Garin


10. ARTES VISUIAS - ENSAIO SOBRE A LIBERDADE
Nove intervenes no CCBB-SP desafiam o edifcio e funcionam como metforas da ao da arte sobre a sociedade
por Paula Alzugaray

Planos de Fuga - uma exposio em obras/ Centro Cultural Banco do Brasil, SP/ at 6/1/13

VERTIGEM - Cortina de Cristiano Renn instalada no vo central do edifcio
 
Em 1974, o artista americano Gordon Matta-Clark (1943-1978) empunhou motosserra e britadeira e dividiu ao meio uma casa da periferia de Nova York. A ao, intitulada Splitting, dava incio a sua srie de building cuts. Matta-Clark era formado em arquitetura, mas se celebrizou desmontando e perfurando edifcios. Sua anarquitetura foi determinante para mostrar que a arte no  unicamente aquilo que ocupa o espao, mas  o prprio espao, modificado pela inteno artstica. Assim, Matta-Clark tornou-se uma baliza para artistas que tm a arquitetura como objeto de investigao. Hoje, ele compe uma das bases de sustentao de Planos de Fuga  Uma Exposio em Obras, transferindo para o edifcio do CCBB, em So Paulo, a instabilidade de sua anarquitetura.
 
A exposio rene nove artistas contemporneos e trs histricos: Matta-Clark, Claudia Andujar e Robert Kinmont. O escritor Adolfo Bioy Casares poderia ter sido considerado o quarto artista histrico, na medida em que o ttulo de seu romance Plan de Evasin (1945) foi apropriado pelos curadores da exposio, Rodrigo Moura, do Centro de Arte Inhotim, e de Jochen Volz, curador da Serpentine Gallery, de Londres.
 
Fuga e instabilidade so os dois conceitos-chave dessa exposio, que tem como tnica o conceito da liberdade. A fuga  a sensao regente da instalao do colombiano Gabriel Sierra, uma espcie de no-lugar (conceito do antroplogo Marc Aug para designar lugares de passagem, sem identidade definida). Seu trabalho funciona como um negativo do espao expositivo, uma rea vazia, de paredes mveis, onde o espectador no encontra nada alm de fragmentos de memria de exposies passadas, que j ocuparam aquele espao. A fuga tambm equivale ao efeito tico produzido pela cortina de plstico, instalada por Cristiano Renn no vo do edifcio, endossando seu carter vertiginoso.

ARQUEOLOGIA - Paredes e cho descascados na instalao de Rivane Neuenschwander
 
A instabilidade est muito bem representada pelas instalaes de Rivane Neuenschwander e Sara Ramo, que propem experincias quase arqueolgicas em relao ao edifcio do CCBB, dialogando com muita intimidade com as escavaes de Matta-Clark. Rivane, na obra sonora The Conversation (2010), aplicou materiais de revestimento s paredes e ao cho da sala, onde escondeu microfones. Como uma trama literria de perseguio e fuga, o trabalho consistiu em gravar todos os movimentos de uma pessoa que rasga e descasca impiedosamente o espao,  procura dos aparelhos. Como resultado, o visitante encontra um espao semidestrudo, com a trilha sonora de uma busca.
 
Fuga e perseguio tambm determinam a instalao de Sara Ramo, no subsolo, onde se encontra a caixa-forte do antigo banco. A obra  uma das melhores jamais produzidas nesse espao  consiste em um ambiente labirntico que se assemelha a um canteiro de obra inacabada, repleto de dejetos e resqucios das vidas daqueles que supostamente trabalhariam ali  operrios, mineradores ou ladres. Altamente sugestivas, as instalaes de Planos de Fuga oferecem ao espectador vias de escape da vida ordinria.


11. ARTES VISUAIS  ROTEIROS - CIRCUITO DE RAIZ
RODRIGO BUENO - MATUTO AO CUBO/ Estdio Buck, SP/ at 15/12
por Paula Alzugaray

Um jogo de cena entre a natureza-morta e a natureza que persiste em continuar viva. Assim pode ser definida a potica de Rodrigo Bueno, atualmente em exposio individual no Estdio Buck, em So Paulo. O interesse do artista em ecologia, seus estudos na rea e a pesquisa iniciada no curso de arte e conscincia, da Universidade John F. Kennedy, na Califrnia, levaram-no ao desenvolvimento de um trabalho reflexivo sobre as relaes entre natureza e cultura.
 
Para a individual Matuto ao Cubo, Bueno elaborou um circuito que deve ser percorrido pelo visitante ao longo de todo o espao da galeria, que remete aos processos de transformao por que passam as matrias-primas. O visitante  recebido por mveis fecundados por plantas (foto); objetos cuja funo foi organicamente modificada por sementes inseridas em sua estrutura. So cadeiras, mesas e sofs que perdem seu carter utilitrio e ganham uma vida no plano da fbula.
 
Na sala seguinte, o mobilirio d lugar a painis e esculturas verticais, produzidas com pedaos de tbuas, feitas de madeiras de rvores da Mata Atlntica. Cuidadosamente selecionado de caambas de lixo da cidade, esse material  revivido nas esculturas intituladas Matutos  termo que se refere originalmente a tudo aquilo que vem do mato.
 
Integram o ciclo da exposio, ainda, algumas caixas de luz que contm naturezas-mortas construdas pelo artista e pinturas que retratam as plantas do jardim de sua casa  onde tambm funciona seu ateli , localizada no bairro paulistano da Lapa. O resultado  uma instalao site-specific, que funciona como um ecossistema que convida  visualizao de um ciclo de regenerao e reconstruo.
 
O artista tambm integra atualmente a mostra coletiva Re-design: Brasileiros e Holandeses Experimentam Descartes, no Museu da Casa Brasileira, com curadoria de Mara Gama e Jonna van der Zanden, sobre o partido ecolgico de trabalhar com resduos slidos como materiais construtivos e criativos. A mostra aproxima seis artistas em atelis coletivos para troca de experincias.

